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Meritocracia – Uma ilusão

Posted by Fabricio Pessoa em 29 maio, 2017

Em tempos de crise ou de mudança, é comum ouvirmos no meio profissional ou acadêmico o termo “meritocracia” como sendo o critério balizador da promoção ou valorização de um profissional, sob o entendimento que a verificação dos méritos de uma pessoa servem por si só para indicar aqueles que fariam jus a um maior ganho ou benefício.

Entretanto, o que muita gente não percebe é que este conceito será sempre impreciso, e alám disso não sabe que este termo surgiu como uma grande piada.

A palavra “meritocracia” surgiu pela primeira vez na literatura em 1958, por meio da obra “The Rise of the Meritocracy” (capa do livro abaixo), escrita pelo sociólogo e político britânico Michael Young. Ocorre que esta obra é uma grande sátira política, que faz justamente uma paródia de um sistema onde a inteligência e o mérito teriam se tornado o pilar central de uma sociedade distópica.

A palavra foi adotada na língua inglesa sem nenhuma das conotações negativas preconizadas por Young, e foi adotada por apoiadores do conceito mundo afora, quase como que uma filosofia, a qual no fundo – e como dito no título acima – não passa de uma ilusão.

Isto porque toda forma de avaliação de mérito ou se mostrará subjetiva na sua origem (afinal será criada em parâmetros que via de regra são variáveis), ou, caso seja adotada com base em critérios estritamente objetivos, sempre se mostrará injusta do ponto de vista das relações humanas.

Tomemos um exemplo a respeito disto: Imaginemos dois vendedores de carros que estão sendo cotados para gerente de vendas. O primeiro é um funcionário altamente confiável, bem humorado e com muito tempo de casa, que tem boas ideias e que muito contribui para a ambiência organizacional, porém não bate as metas de venda a ele atribuídas. Já o segundo bate com folga todas as metas de vendas, mas peca em todos os atributos interpessoais e já foi questionado quanto à lisura de seus procedimentos.

Pois bem. Se o critério de mérito adotado pela companhia para os empregados deste setor for o alcance de um valor de vendas, nitidamente o segundo empregado fará jus ao cargo de gerente em detrimento do primeiro. E aí vem a pergunta: este critério será realmente justo? Como fica a dedicação do primeiro empregado, que ajuda (e muito) a empresa de várias outras formas?

Você pode estar pensando: ora, então os critérios da empresa foram errados e deveriam ter abrangido os outros aspectos. Verdade, mas como então criar e mensurar estes outros aspectos? Seria de fato possível avaliar objetivamente estes critérios? E ainda que assim fosse, os donos da empresa não iriam se valer, no final das contas, de seus próprios critérios para determinar quem seria o escolhido?

O que quero dizer com isso é que TODA FORMA DE AVALIAÇÃO DE MÉRITO É SUBJETIVA. Não há como escapar disso – mesmo com critérios totalmente fixos e bem definidos – lembrando que, conforme já falamos acima, critérios são criados em função de momentos e valores específicos, e de sua avaliação mediante percepções pessoais – ainda assim não será possível garantir que um empregado que atinja determinadas condições obterá ganhos em seu desenvolvimento. E mesmo que ele ganhe estes ganhos a partir dos critérios de mérito, como fica o esforço daqueles que não atingiram? Será que estes esforços não geraram benefícios ainda maiores para a instituição ou mesmo para a sociedade?

Mas o emprego do conceito de meritocracia possui um outro elemento ainda mais maléfico. A ampliação do uso deste termo por agentes políticos, como salvação para os males de um governo. Estes políticos buscam utilizar a meritocracia como melhor padrão de valorização, contudo eles não lembram (ou propositadamente não falam) que a disputa pela meritocracia somente funcionaria de fato entre pessoas que tiveram condições iguais de se preparar e de se desenvolver para determinada oportunidade.

Vendo a realidade da teia social da grande maioria dos países do mundo, é fácil perceber que a estratificação das camadas sociais destes paísas aponta que há um grande déficit na oferta e na qualidade da educação, dos sistemas de saúde e das espécies de trabalho disponíveis para todos. A maioria das pessoas não tem oportunidades adequadas de se desenvolver, e ora, se há um desequilíbrio nas condições de desenvolvimento entre pessoas, também haverá desequilíbrio na concessão de benefícios derivados destas condições de desenvolvimento!

E nem falemos da “crueldade” que o modelo meritocrático impõe, ao rotular os “fracassados” como vítimas de seu próprio fracasso, sem respeitar as condições, as dificuldades e as influências externas que possam ter servido como empecilho ao seu desenvolvimento”! E aqui também cabe uma outra polêmiaca: será que o fator sorte ou azar não poderia também influenciar na questão da aquisição do tal “Mérito”???

Por estes e outros motivos, me parece bastante evidente que a “meritocracia” não passa de uma ilusão incorporada na vida educacional e profissional – e, depois, por agentes políticos – para justificar benefícios a pessoas (que no fundo são sim) de suas próprias escolhas, em detrimento de outras, e por isso entendo que esta forma de valorização deve ser abolida, adotando-se em seu lugar formatos híbridos entre metas e “elementos de reconhecimento e valorização social”, assumindo-se assim que haverá sempre um elemento objetivo e outro subjetivo na concessão de benefícios a alguém.

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